segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Mãe,

eu queria que tu parasse de andar impaciente por detrás de mim porque já é a vigésima vez que eu começo a escrever em minha cabeça e eu nem sei mais como continuar. Mãe, eu queria que tu saísse daqui agora porque tá uma vontade louca de chorar dentro de mim e eu nunca aprendi a fazer isso na tua frente. Mãe, eu queria que tu acabasse com essa fumaça que envolve a gente, eu queria que tu me roubasse esses meus cigarros assim como tu roubou todas as outras coisas ruins de mim sem que eu percebesse. Mãe, eu queria que tu tivesse chorando, mão, igual as outras vezes que eu sentei aqui pra te escrever uma carta de "te amo" só pra te fazer sorrir. Mãe, eu queria que tu se lembrasse de tudo que a gente já conversou e de quantas vezes eu disse que o tempo é a coisa mais triste que existe porque ele é vazio e não tem sentido. E eu, mãe, eu sou o tempo, só que mais vazio e mais triste ainda, e todo esse teu amor de mãe nem parece existir aqui dentro. Mãe, eu queria que tu não tivesse aflita porque tu tem a certeza de que eu tô prestes a fazer uma coisa feia e a tua aflição me entristece ainda mais e essa tristeza crescente me dá ainda mais forças pra não recuar. Mãe, eu queria que tu me prometesse que vai se livrar dessa cidade angustiada, dessas pessoas doentes de angústia, dessa casa angustiada porque nada disso te faz bem, mãe. Mãe, eu queria que tu nunca chorasse porque tu sabe o quanto eu odeio quando tu tá triste, mãe. Mãe, eu queria que tu jamais sentisse culpa por ter sido minha mãe, por ter respeitado a minha privacidade, por não ter lido isso antes da hora. Mãe, eu quero que tu se liberte da culpa de ter sido minha amiga por todos esses verões. Mãe, eu queria que tu me deixasse sozinho hoje, agora, porque eu ainda quero chorar um tempão sem ninguém por perto, mas eu sei que tu tá preocupada demais comigo e não vai sair do meu lado, então vem cá e me dá um abraço bem forte porque eu sei que tu vai sentir uma dor vazia quando eu for embora. Mãe, eu queria que tu perdoasse a sujeira, a bagunça de criança que eu vou deixar, mas eu juro mãe, que vai ser a última vez. Mãe, eu queria que tu não entrasse no meu quarto, que não visse nada porque vai ser feio, mãe, vai ser feio e tu quase nem toma remédios mais e eu acho que eles são insuficientes pra mim. Mãe, eu queria poder te tranquilizar agora porque paz, como tu sempre diz, paz é tudo. Mãe, eu queria estar ao teu lado, mãe, e apertar tua cabeça contra meu peito, apertar os olhos e tapar teus ouvidos quando uma das balas me tomar a vida que tu me deu, mãe. Mãe, eu queria ter sido o filho que tu sempre quis ser. Mãe, eu queria dizer que eu te amo. Que eu te amo muito, mãe.

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